AMOR NÃO É PARA QUALQUER UM. É PRECISO
DISPOSIÇÃO PARA SER RIDÍCULO E UMA BOA DOSE DE SANDICE
Um dia, você se pega ali, ouvindo a previsível batida daquele coração, e a
certeza do amor vem como uma bigorna gentil. Vocês, que fizeram pactos
silenciosos e promessas não ditas, na mais pura e singela devoção, agora estão
deliciosamente presos pela liberdade que decidiram compartilhar. Existe uma
nudez serena entre vocês, transcendendo a pele ansiosa e alcançando a alma
faminta, numa dança singular.
Há dias em que
nem terno preto ao som de Marcha Fúnebre disfarça o brilho de uma grande
descoberta. Dias em que dançar pelado, sem quê nem porquê e ao som do silêncio,
faz tanto sentido quanto se cobrir do frio ou lavar o rosto cansado. Descobrir
o amor é assim. Ele começa apaixonado, estabanado, procurando a medida exata
daquilo que ainda não conhece bem. Confunde a mente, chora inseguro, faz
alvoroço, como uma criança birrenta, e, num pávido anúncio publicitário, berra
“cheguei, querido, agora não tem pra ninguém”.
O amor judia um
pouco antes de virar adulto. Às vezes, faz as malas e vai embora, prematuro,
incompreendido, quando a incongruência não se transpõe. Mas, se resiste forte,
conhece a calmaria e descobre a redenção, e a certeza de sua chegada se espalha
como um mar de plenitude nos corações jubilados pela graça sossegada que só um
sonho bom consegue desenhar.
O mundo melhora
quando alguém começa a amar. Quem ama de verdade emana bondade, frescor
paciente, calma sincera. Quem ama de verdade é ridículo o tempo todo, seja na
fala mansa de contentamento, ou nos versos espontâneos que surgem quando se dá
à filosofia sobre o mundo, a vida, ou qualquer singeleza que subitamente lhe
desperte poesia.
Amor é passagem
só de ida. Ao chegar, revolve tudo até se acomodar. Cura feridas, limpa mágoas,
seca lágrimas, até que bate as mãos e se instala feliz na tranquilidade que
conquistou. Uma vez bem alojado, demanda esforço e atenção, num prazeroso
cuidado que dispensa migalhas e só se serve de verdade se for da quitanda
inteira.
Se um dia
acontece de partir, fica a certeza de que ele foi infinito enquanto durou. O
coração que tanto se deu carregará para sempre a tatuagem da história vivida.
Não é para qualquer um, amigo, não é para quem quer. Amor não tem volta. A
entrega exige coragem e uma boa dose de sandice.
Quisera eu todo
mundo amasse muito, sempre e cadenciadamente. Quisera houvesse mais canções a
quatro mãos, alegria dividida e sinergia compassada. Seria o mundo menos
caótico e os homens, certamente mais longevos.
Amor não tem
definição, tempo, lugar, nada. Tentaram Houaiss, Camões, Paulo de Tarso,
Vinícius e o mundo inteiro. Tento eu, tentamos nós, e ele sorri esquivo na
certeza de sua fluida escapada de sucesso. Por ele, sempre valerá a pena lutar,
escrever uma crônica piegas e… viver!


14:07
Unknown



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